Exportações de bovinos vivos: futuro de maré calma ou agitada?

Em 2018, apesar das questões conjunturais envolvendo este nicho de mercado, o Brasil exportou 100% mais bovinos vivos na comparação com o ano anterior. Para 2019, as expectativas são positivas.

Segundo dados do MDIC (Ministério da Indústria, Comércio Exterior e Serviços), em 2018, a receita com a exportação brasileira de gado em pé foi de US$534,75 milhões, alta de 93,7% frente a 2017.

Há demandas específicas para os bovinos que serão exportados, como limite de idade, raça e peso. Comparado com os preços vigentes no mercado nacional, paga-se mais para os bovinos que serão exportados.

O ágio recebido na comercialização dos bois vivos vai diretamente para o produtor, melhorando sua renda.

O produtor, melhor remunerado, tem como investir em tecnologia, insumos, medicamentos veterinários, adubos e maquinários, movimentando os elos da cadeia produtiva da carne bovina.

Desempenho brasileiro

De acordo com o Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA), em 2018 o Brasil comercializou 850 mil cabeças de bovinos, conquistando o terceiro lugar entre os países exportadores, considerando qualquer tipo de via de transporte (marítima e terrestre). Veja na figura 1.

Lembrando que tramita na Assembleia Legislativa de São Paulo, um projeto de lei que proíbe a exportação de bovinos vivos em todos os portos do estado (ainda aguardando votação).

O volume embarcado em 2018 foi duas vezes maior do que o exportado em 2017 (em torno de 400 mil cabeças).

Figura 1. Participação no mercado global dos principais países exportadores de gado vivo em 2018.

Fonte: USDA | Elaborado por Scot Consultoria

México, Austrália, Canadá e Uruguai são outros grandes exportadores de bovinos vivos. Vale destacar que o bloco econômico formado pela União Europeia também tem importante representatividade, mas como individualmente nenhum país figura entre os maiores exportadores mundiais de gado em pé, optamos por não os considerar nesta análise.

Concorrência

É importante ponderar que existem, basicamente, duas vias para a exportação de gado em pé: a marítima e a terrestre. No caso do México e Canadá, por exemplo, grande parte da exportação é feita por via terrestre, no Brasil, por via marítima.

Veja abaixo os principais destinos dos bovinos vivos em 2018, por país exportador.

Tabela 1. Principais compradores de bois vivos e principal via de transporte, por país vendedor.

País exportador Principal via de transporte Principal destino
México Terrestre Estados Unidos
Austrália Marítima Indonésia e Vietnã
Brasil Marítima Turquia
Canadá Terrestre Estados Unidos
Uruguai Marítima Turquia

Fonte: MLA | USDA | Elaborado pela Scot Consultoria

A Austrália é o maior país exportador de gado em pé (considerando somente o transporte marítimo), contudo, por enquanto, ela não concorre diretamente com o Brasil pois atende mercados consumidores diferentes. Grande parte dos bovinos exportados pela Austrália tem como destino a Indonésia, o Vietnã, e outros países asiáticos.

A Turquia é o maior comprador do Brasil. Em 2018 absorveu praticamente 70% do gado exportado, o segundo maior importador dos bovinos brasileiros foi o Egito (13%) e o terceiro o Líbano, comprando 7% do total embarcado.

A Turquia é também o principal cliente do Uruguai. E, qual é nossa vantagem competitiva em relação ao Uruguai? Veja abaixo.

Comparando a quantidade de cabeças exportadas em 2018, em relação a 2017, dos cinco maiores exportadores, o Brasil foi o que mais cresceu. Veja abaixo.

Tabela 2. Variação anual no volume em mil cabeças exportadas.

País     2018 x 2017       
México 100%
Austrália 108%
Brasil 209%
Canadá 101%
Uruguai 130% 

Fonte: USDA | Elaborado pela Scot Consultoria

Participação das exportações no rebanho

Segundo dados do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), o rebanho brasileiro é de 214,9 milhões de cabeças, ou seja, os embarques em 2018 equivaleram a, aproximadamente, 0,4% do rebanho nacional.

Já o Uruguai, de acordo com os dados do Ministério da Pecuária, Agricultura e Pesca (MGAP), possui um rebanho bovino de 11,3 milhões de cabeças, portanto, cerca de 4,0% do efetivo uruguaio foi destinado ao mercado externo.

E lá, o impacto na composição do rebanho e no fornecimento de gado para abate está sendo sentido.

Dessa forma, a exportação de gado vivo passa por uma controvérsia no Uruguai, em função do rebanho menor comparativamente com outros exportadores e maior representatividade das exportações de gado frente ao total de bovinos. Isso, mais cedo ou mais tarde, poderá redefinir a política de exportação de bovinos vivos.

No caso brasileiro, o fenomenal tamanho da pecuária permite que se atenda a todos os mercados, e caminhamos para a consolidação da exportação de bovinos vivos.

O dever de casa agora é consolidar os mercados existentes e abrir outras vias de escoamento.

O que vem por aí

Para 2019 espera-se que a demanda por bovinos vivos da Turquia, assim como a do Egito e a do Líbano, continue aquecida.

E levando em consideração os entraves que estão sendo enfrentados pelo Uruguai, é possível que o Brasil, diante de suas vantagens competitivas, consiga atender também esta fatia do mercado de exportação de gado em pé.

Além de um nicho de mercado a ser explorado, o ponto principal é o ganho para a cadeia pecuária como um todo, através da agregação de valor, ou seja, treinamento de mão de obra, construção de áreas para embarques e pré-embarque, maior utilização de insumos e melhor desempenho animal, ágio de preços desses animais para exportação nas praças exportadoras, entre outros pontos favoráveis.

Autora: Marina Zaia – Médica Veterinária

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